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Avaliado no Brasil em 14 de julho de 2020
O nome do escritor Philip K. Dick pode não lhe doar familiar, entretanto as adaptações de seus livros para o cinema provavelmente são. Afinal, quem não assistiu ou ao menos ouviu falar de Blade Runner, O Vingador do Futuro ou Minority Report.

A essa lista, um novo título foi acrescentado em 2015: a distopia O Homem do Castelo Alto. Ela foi transposta para o formato de seriado, produzido e distribuído pela Amazon via streaming, e justamente após assistir, resolvi ler o livro. Sem lançar spoilers, posso adiantar que são duas propostas com instigantes com semelhanças e diferenças e, sem dúvida, vale a pena conhecê-las.

Em especial, o livro. Vencedor do Prêmio Hugo, ele foi publicado e também é ambientado em 1962, no caso, dezessete anos após as Potências do Eixo terem hipoteticamente derrotado os Aliados na Segunda Guerra Mundial. Uma conjuntura assustadora diante da realidade que vivemos, por exemplo, os Estados Unidos surgem divididos entre duas potências emergentes: o Japão e a Alemanha. Curiosamente, em assíduo conflito, ambas vivem um simulacro da Guerra Fria que foi travada no mundo real entre o próprio Estados Unidos e a União Soviética.

A mencionada derrota dos Aliados é resultado de uma divergência com a realidade. Em 1933, Franklin Delano Roosevelt teria sido assassinado por Giusepe Zangara, sendo substituído pelo Vice-Presidente John Nance Garner que igualmente foi substituído por John W. Bricker. Nenhum nem outro, conseguiu anular os efeitos da Grande Depressão por conta de uma política isolacionista que impediu ajuda à Inglaterra e União Soviética contra o avanço do Nazismo.

O rumo dos acontecimentos expõe uma Alemanha cuja economia está à beira da bancarrota por conta da escassez de recursos causada por investimentos mal planejados, a exploração espacial é um bom exemplo, enquanto a elite política disputa a chancelaria do Reich após Martin Bormann, que ocupava o posto, falecer.

Sinteticamente, O Homen do Castelo Alto gravita em torno de uma operação secreta para salvar o domínio germânico e de um livro — no seriado, são fitas de vídeo. Intitulado O Gafanhoto Está Pesado, ele apresenta um mundo livre, no caso, o Eixo “perdeu” a Guerra para os Aliados, motivo de sobra para ser censurado pelo regime nazista e atrair a atenção das pessoas, a ponto de seu autor, Hawthorne Abendsen ser obrigado a viver escondido numa fortaleza no alto das montanhas.

Enfim, por intermédio da metaliteratura, Dick explora um de seus temas preferidos: a realidade, ou melhor, a matriz espaço-tempo. Afinal, o que ela é? Não é por acaso que a ficcionista norte-americana Ursula K. LeGuin chamava o escritor carinhosamente de “nosso próprio Borges”, remetendo ao escritor argentino Jorge Luís Borges, obcecado pelo mesmo tema.

Quanto aos aspectos positivos do livro, indubitavelmente ele foi planejado com todo cuidado, exigindo inúmeras pesquisas. Igualmente, ele possui uma interessante estrutura: todas as personagens estão conectadas de alguma maneira pelo I Ching, o oráculo mais antigo do mundo. Por sinal, muito bem construídas, elas roubam a atenção, em especial, a sedutora instrutora de judô Juliana Frink e Nobusuke Tagomi, representante do comércio japonês em São Francisco que protagoniza a experiência mais insólita da narrativa.

Finalmente, a edição não me agradou, faltaram as indispensáveis notas de rodapé que ampliam a perspectiva do leitor, em especial, em narrativas que se baseiam numa conjuntura histórica, mesmo que tenham, como ocorre, a ousadia de recriá-las. Por sinal, apesar de esporádicas, sequer as traduções de palavras e frases em alemão foram vertidas para o português, uma cortesia para quem — assim como eu — desconhece o idioma. Portanto, minhas cinco estrelas são unicamente para a distopia, sem dúvida, irretocável.

Nota: Comprei o e-book que atendeu minhas expectativas.
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