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Avaliado no Brasil em 9 de outubro de 2019
Quando concluo uma obra de Dostoiévski só Camões pra me ajudar nessa relação, pois o sentimento é sempre de um "contentamento descontente":
Contentamento porque autor consagrado dispensa referências (as minhas referências), e Fiódor mais parece um 'extraterrestre' que viveu entre nós...; Descontente porque é quase impossível acompanhar integralmente as peripécias da narrativa e as relações históricas e literárias de sua época. Toda obra traz em si marcas específicas cujo conteúdo e natureza os leitores posteriores jamais recuperarão, não obstante o esforço grande que as Notas de rodapé tentam suprir. Há lacunas insuperáveis, entretanto, nem por isso Dostoiévski deixa de ser brilhante no que fez.
Em cada obra uma aventura, em cada livro múltiplas sensações, e por isso, costumo dizer que Dostoiévski exige tempo, longo tempo, pois suas personagens são muitas, variadas, densas e complexas.
Há muitos momentos nas narrativas que é necessário por parte do leitor um certo distanciamento para observar melhor, para sentir com mais pertinência a circunstância vivida pelas personagens. Elas captam com fidelidade muitos dos nossos próprios conflitos e dramas cotidianos tão 'humanos, demasiadamente humanos' que, passam os séculos e, se mantém os mesmos de outrora.
A dificuldade em ler Dostoiévski penso ser a ligeireza de que somos vítimas, como 'produto massificado' próprio do nosso tempo, que nos tornamos ou nos tornaram: estamos sempre muito sôfregos, ansiosos e pragmáticos em nossos objetivos, enquanto Dostoiévski, sem pressa, vai lentamente, e artesanalmente construindo suas personagens.
As obras de Dostoiévski nos humanizam ou (re)humanizam porque nelas transitam valores que tratam da vida, e também da morte.
Já estive com Dostoiévski em muitas estações nessa já longa e proveitosa jornada: em Crime e Castigo, Notas do Subterrâneo, Os Irmãos Karamazov, Contos Reunidos, Os Demônios e, por último (mas não o último) O Idiota, e o dilema é permanente: ao fim de cada leitura resta a sensação de imensa alegria e, igualmente, uma certa frustração pela perda de muita coisa relevante.
Mas o ganho é sempre maior com Fiódor do que sem Dostoiévski.
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