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Avaliado no Brasil em 21 de outubro de 2019
“A solução não está na temperança.” Esta frase, de Caio Fernando Abreu, expressa a visceralidade que norteou sua vida e igualmente lhe serviu de estratégia de escrita. Ela faz parte de uma carta endereçada a seu amigo José Penido que, datada de 1979, encerra todas as edições póstumas do escritor, um virginiano com ascendente em Escorpião que se tornou um dos nomes mais cultuados de sua geração. Caio também é presença frequente nas redes sociais, apesar de ter falecida em 1996, isto é, quando a internet engatinhava, por conta de trechos de livros ou artigos que nem sempre são de sua autoria.

“Morangos Mofados” é considerado seu melhor livro e esgotado há anos, acaba de ganhar uma nova edição pela Companhia das Letras. Uma iniciativa bem-vinda, pois até então a única maneira de adquiri-lo era optar por um exemplar usado ou pela caixa com todos os contos do escritor, escolhas nem sempre mais convenientes para o leitor.

A edição escolhida para reimpressão foi a de 1995, revisada pelo Caio um ano antes de sua morte e quinze após o lançamento do livro e como ele adianta nas primeiras páginas: “trabalhar distanciado da emoção da criação foi como como voar sobre uma rede de segurança” e ele esperava não ter errado o salto. Como tenho a primeira edição, pude comparar e, de fato, o que interessa, conteúdo e estrutura, são os mesmos, a maioria das mudanças referem-se a pontuação, acréscimo e eliminação de parágrafos.

“Morangos Mofados” reúne dezoito contos que José Castello denomina “indigestos” no Posfácio, “A Escrita do Tremor”, que finaliza o livro. Um adjetivo adequado, à medida que ele trata de temas difíceis e até dolorosos, como homossexualidade, preconceito, drogas, solidão e morte.

Castelo também afirma que “embora dividida em três partes — a primeira, “O mofo”, dedicada aos tempos da ditadura militar; a segunda, “Os Morangos”, voltada às transformações interiores; e a terceira, “Morangos Mofados”, ocupada pelo belo conto que empresta seu título ao livro —, a obra mantém uma férrea unidade, em torno da coragem de se despir, da fidelidade aos sentimentos mais íntimos e mesmo os mais terríveis, e ainda da dificuldade de ser.”

Quanto aos contos, o ultimo conto foi inspirado num sucesso dos Beatles, “Strawberry Fields Forever”, e carrega uma bela mensagem: mesmo mofados, os morangos guardam em seu interior o frescor do seu sabor, isto é, o gosto pela vida. Esse aceno de esperança está ligado a outra narrativa fundamental para entender a proposta do autor. Trata-se de “Os Sobreviventes” que retrata a frustração de uma geração que viveu o auge da Contracultura e viu seus sonhos desmoronarem.

A primeira vez que li o livro, ele acabara de chegar às livrarias e resolvi relê-lo a dias atrás, quando adquiri o e-book. Indubitavelmente, foi uma releitura marcada pelo saudosismo, mas que também me surpreendeu, ao constatar que antigas questões permaneceram inalteradas ao longo dos anos. Uma delas é o preconceito homofóbico e, infelizmente, a violência de “Terca-Feira Gorda”, o medo que permeia “Sargento Garcia” e a hipocrisia de “Aqueles Dois” continuam assíduos no dia-a-dia.

Finalmente, Caio era um estudioso de Astrologia e o assunto é recorrente em seus contos. “Morangos Mofados” apresenta dois bons exemplos: “O Dia em que Urano entrou em Escorpião” e “O Dia Que Júpiter Encontrou Saturno”. Minha sugestão, se você não curte Astrologia, é depois de lê-los, pesquisar o o que significa o trânsito de Urano em Escorpião e a conjunção de Júpiter e Saturno. Com certeza, seu entendimento desses textos será redimensionado.

Boa leitura!
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